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terça-feira, 25 de abril de 2017

Na Colônia Penal

Uma história impactante que na verdade é uma novela, é sobre uma máquina de tortura e execução que atua dentro de uma colônia penal chefiada por um oficial imparcial que está encarregado de torturar e assassinar um soldado membro da colônia acusado de insubordinação e desacato ao seu capitão. Um explorador é enviado ao local por um comandante para verificar os procedimentos judiciais utilizados. A descrição da máquina feita pelo oficial ao explorador é de uma tensão e agonia atrozes, inclusive a vítima é apresentada pelo narrador como "o condenado". Quando o oficial se preocupa com o que ele julga ser um poder superior por parte do explorador, lhe pede ajuda tentando convencê-lo a não divulgar sua opinião própria que obviamente era oposta ao método utilizado; tenta persuadi-lo. Mas sendo o explorador um homem convicto, não se deixa influenciar, atitude que desencadeia um fim ao mesmo tempo grotesco e apaziguador.
"Na Colônia Penal" é uma novela incrível e arrebatadora capaz de representar com clareza através da narrativa fluída e perturbadora toda a crueldade causada pela máquina e contida em seu manipulador, de modo a causar no leitor arrepios de agonia, inquietação, pavor e até mesmo impotência conforme a descrição do funcionamento da máquina. Uma atmosfera estarrecedora comum nas obras de Kafka. Apesar de ser horrenda, a história ainda traz um fim de alívio, digno da honra do explorador.
Além de os contos (post anterior aqui no blog) e a novela "Na Colônia Penal" serem bem construídos a ponto de  tirar o leitor da zona de conforto, são produções escritas pouco antes da morte prematura de Kafka aos 40 anos vítima de tuberculose e são praticamente autobiográficas, o que torna a atmosfera ainda mais desconcertante.


Link para a resenha dos contos: http://diversidadefutil.blogspot.com.br/2017/04/um-artista-da-fome-seguido-de-na.html

Um Artista da Fome seguido de Na Colônia Penal e outras histórias

As obras de Franz Kafka retratam a angústia do homem moderno no século XX, sua rejeição pela sociedade e as consequências de seguir seus ideais.
O conto de abertura intitulado "Primeira Dor" conta a história de um trapezista que para poder literalmente viver de sua arte passa a vivenciar os dias e as noites em cima do seu instrumento de trabalho sem precisar descer, pois suas necessidades básicas eram atendidas por empregados. Assim vivia tranquilo tendo como incomodação apenas as constantes viagens aos circos organizadas por seu empresário. Durante uma viagem em particular, o trapezista exige ao empresário um segundo trapézio, caso contrário deixaria de trabalhar. A princípio o empresário não o levou a sério até descobrir o motivo da exigência e ficar perturbado desde então.
Já no segundo conto "Uma Pequena Mulher" a história é a de uma mulher literalmente de baixa estatura que não suporta o narrador, sendo o desenrolar através deste questionando o motivo dessa constante irritação, pois não conseguia encontrar causas e que além de se preocupar com os julgamentos da mulher ainda precisa lidar com uma possível repressão social.
O terceiro, talvez o mais reconhecido "Um Artista da Fome" retrata a história de um jejuador profissional (um faquir) que se apresenta em circos como um animal ficando numa jaula, até que o público passa a ignorá-lo. Quando passados alguns dias, um inspetor se aproxima acreditando que a jaula está vazia mas ao revirá-la, descobre o faquir quase morto que o revela o segredo de ter permanecido nessa profissão e consequentemente nessa condição precária.
O quarto conto "Josefine, a Cantora ou O Povo dos Ratos" traz a história da cantora Josefine que atrai seu público através de um canto simples e diferente que reflete muito o próprio povo que a admira.
Gostei do livro por ser tipicamente Kafkiano, repleto de dilemas vivenciados pelas personagens. Os contos "Primeira Dor" e "Um Artista da Fome" são congruentes porque além de trazerem à tona a precariedade das artes abordadas, também retratam a condição humana. "Uma Pequena mulher" me proporcionou duas possibilidades de interpretação: talvez a mulher odiasse o narrador por se sentir inferior a ele ou por ele representar seu reflexo; nesse caso ela estaria insatisfeita consigo mesma.
"Josefine, a Cantora ou O Povo dos Ratos" me atraiu bastante apesar de sua sutileza pois como o título sugere, o povo admira a arte de Josefine que é simples e peculiar por esta ser um reflexo de sua condição, um povo humilde, sofredor, ignorante, infantil e cheio de inimigos. Até que Josefine por sua insatisfação toma atitudes drásticas que acabam gerando uma consequência final.

  

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Conto: Uma Aventura Parisiense

Um conto simples do crítico social Guy de Maupassant e que apesar de curto e escrito em uma linguagem acessível, traz contexto histórico, ideologia e moral em suas entrelinhas.
A história é de uma jovem provinciana de vida pacata que movida pela curiosidade resolve conhecer Paris em razão das crônicas que lia sobre as roupas e os costumes da época. Determinada, inventa uma desculpa singela ao marido e o deixando com seus dois filhos, segue seu caminho.
Ao chegar em Paris se sente deslocada em meio aos cafés e bulevares conturbados, fica espantada com essa circunstância. Mas ao lembrar dos célebres e ilustres homens, além dos artistas quase perfeitos, segue sua jornada na esperança de encontrar um desses seres importantes.
Logo chega em frente de uma loja especializada em artigos japoneses quando percebe o proprietário negociando um bibelô com um suposto homem dos seus sonhos. Ao se aproximar cautelosa, descobre que o comerciante dissuadia o famoso escritor Jean Varin e que a loja atraía artistas renomados como Dumas e Zola. Perspicaz, a moça compra o bibelô para Jean em troca de sua companhia. Juntos, vão aos bulevares, ao teatro e bebem absinto. Quando finalmente anoitece, a moça sucumbe ao seu verdadeiro desejo. Tímida e simples, se depara com a exigência e arrogância de Jean Varin. Perturbada pela ignorância de seu parceiro, vai embora logo na manhã seguinte apenas tendo descoberto que o pecado é de fato perigoso.
A moral do conto é mostrar a vida repleta de prazeres mundanos pela perspectiva de que esses podem não ser verdadeiros e que apesar da popularidade da Belle-Époque em voga na época, esse período não era sinônimo de felicidade e integralidade, afinal a existência ainda era superficial.

Uma Aventura Parisiense e Outros Contos de Amor (Contém spoilers)

O livro ''Uma aventura Parisiense e outros contos de amor" do Guy de Maupassant, traz contos curtos que retratam o amor de forma inconvencional e suas inevitáveis consequências.
De fato o amor verdadeiro pode transformar os seres humanos em pessoas melhores e mudar vidas; mas o foco do livro são os ardis do amor, que também é capaz de devastar vidas conforme as circunstâncias.
Um dos meus contos favoritos chamado "O Modelo", retrata o machismo com que os artistas tratavam as modelos da época, atitude que resultou em suicídio e numa vida inteira sem conhecimento do amor em sua íntegra. O machismo também é abordado no conto "A Acha", quando o personagem Paul quase trai seu melhor amigo Julien com suas esposa Berthe. Apesar das investidas da moça, se Paul chegasse ao coito, não pensaria em sua amizade com Julien, simplesmente se deixaria levar pelo prazer carnal.
Outro conto que gostei mais em particular, "Berthe" (embora não se relacione com o anterior), retrata o caso de uma adolescente portadora de um grave distúrbio mental que apesar de submetida a metódicos e intensos tratamentos por seu médico Dr.Bonnet, responde apenas de modo restrito, semelhante a um cão. Para amenizar seus sintomas, o pai de Berthe negocia quase suplicando um casamento para a filha com o Dr., que concorda. O pretendente é um boêmio chamado Gaston que não dava atenção à sua esposa. Era tão ausente que parou de visitá-la, o que fez Berthe enlouquecer e por consequência ter que passar o resto da vida trancada em sua própria casa.
Gostei do livro por abordar o amor com uma premissa oposta ao que é idealizado.




domingo, 16 de abril de 2017

Frankenstein (Contém spoiler)

Uma obra escrita pela jovem Mary Shelley aos 19 anos que apesar de ter entrado para a história da literatura como símbolo do horror, traz consigo grandes questionamentos sobre a sociedade e uma sensibilidade sublime.
A história mundialmente conhecida, talvez não em sua íntegra, revela a criação de um monstro acidentalmente grotesco e repugnante que recebeu vida e por consequência se tornou um ser tanto racional quanto emocional como seu criador Victor Frankenstein, o homem fascinado pelas ciências naturais.
Como um recém-nascido, a figura de 2,40 metros de altura não sabia das dificuldades que enfrentaria em razão de sua aparência. Era dotado de um espírito bondoso apesar de ter sido rejeitado pela sociedade e por seu próprio criador. Em certa ocasião vagando pelas ruínas de sua circunstância, se abriga numa choupana para observar uma família de camponeses e acaba descobrindo a história lúgubre que a envolve. Por serem humildes, o monstro se aproximou cautelosamente após um árduo estudo de seus costumes; mas foi praticamente linchado. Possesso, queimou a plantação do quintal da casa e migrou daquele lugar ficando novamente sem rumo.
Por consequência de tamanha discriminação, o monstro que até então era de uma bondade suprema, acabou se convertendo num assassino acabando aos poucos com a vida de seu criador, apesar de sofrer intensamente por seus atos e ser consumido pelo remorso, na medida em que Victor beirava o suicídio por seu desespero. O desfecho da história mostra todo o arrependimento, remorso e tristeza da criatura inominada, que por não ter sido vingada decide se suicidar.
Frankenstein é uma obra de horror, embora a figura criada seja de aspecto fantástico e a maior parte da história foque no terror psicológico vivenciado por seus protagonistas. Mas seu valor está na evidência do preconceito da sociedade pelo desconhecido e inconvencional, que acabou sendo culpada indiretamente pela criação de uma máquina assassina e ambígua, capaz de cometer atrocidades e se arrepender profundamente a ponto de atentar contra a própria vida.